conto #2: Cartão de Natal

Achei. Finalmente, depois de 1 ano e 10 meses, encontrei o Sr. Pádua. Aquela que deveria ter sido a busca mais fácil de minha vida – Débora havia perguntado se eu gostaria de ter o número dele, que há vários anos havia abandonado o sul do Brasil e migrado para o nordeste – acabou se estendendo de maneira desproporcional. Talvez por orgulho, talvez por ingenuidade, respondi que não havia necessidade. Nunca de fato precisei de seu número (quem diabos precisa do número de uma outra pessoa?), até o dia em que pensei que poderia encontrá-lo e não consegui. Fiz algumas buscas, tentei alguns contatos, nada. Encontrei um livro de suas memórias, com baixíssima triagem e escrito ainda em 2001, assim como algumas fotos antigas em que ele aparentava ser um homem de uns 70 anos, cabeça dura e saudosista a respeito da juventude. Por mais que eu buscasse isso era tudo que eu conseguia achar.

Foi somente há umas duas semanas que ele novamente veio em minha mente, quando acabei decidindo fazer uma nova busca. Dessa vez, acidentalmente, usei um navegador conectado a uma proxy nos Estados Unidos, obtendo o resultado da busca como se estivesse por lá. Descobri que ele havia se candidatado para vereador durante as últimas eleições e por causa disso consegui seu e-mail. Tudo isso a partir do Google de um outro país.

Ora, se por quase 2 anos tenho tentando encontrar alguma informação útil a respeito desse senhor e finalmente consigo, não deveria entrar em contato o mais rápido possível? Pensei um pouco sobre o assunto, apreciei a felicidade de o ter encontrado e me fiz completamente satisfeito. – “Nannnn”. Próximo ano, se a natureza for gentil, ele deve continuar vivo. Próximo ano, então, talvez eu mande o maldito e-mail.

Esse desfecho foi profundamente paradoxal e eu me vi genuinamente feliz com ele. Passei tanto tempo procurando o Pádua para, ao encontra-lo, decidir fazer nada a respeito? Parece mais que nunca quis encontrá-lo, mesmo que houvesse algo constantemente querendo me manter na busca. Durante esse tempo eu poderia ter enviado um e-mail, ou ligado, ou escrito para Débora pedindo sua ajuda para achar esse senhor. Penso que ela me ajudaria. O encontraria num piscar de olhos, mas não o fiz.

Se essa busca trouxe alguma clareza é de que esses quase dois anos é também o tempo que não apareço na casa de Débora. Na última vez que nos vimos ela reiterou seu endereço, que eu sabia de cor e salteado. Pediu cartas, repassou seu telefone, me deu um abraço e nos despedimos. Longe de ser uma surpresa, nunca a escrevi. Nunca a enviei um e-mail. Nunca a telefonei. Sabia que ela não me cobraria e presumo que ambos estamos satisfeitos com isso. Esse foi o fato mais frutífero que me veio à mente com essa história do Sr. Pádua. Talvez nunca quisesse realmente encontrá-lo. Talvez tudo isso girasse ao redor dela. Talvez eu sinta a sua falta.

Não é por isso que meus planos agora envolvem enviar uma carta à Débora, ainda que nessa época seja socialmente aceitável entrar em contato com aqueles que você não vê faz tempo. Também não telefonarei, nem enviarei e-mail. Penso hipoteticamente em um cartão de Natal. Mantenho foco. – “Nannn”. Ela está do outro lado e dessa vez o outro lado é o lado de dentro da janela que eu adorava. Imagino que ela observa aviões no céu, sentada ao lado de seus livros amontoados, enquanto aprecia a vida.

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